O economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central e um dos nomes mais respeitados do mercado financeiro brasileiro, deu nesta sexta-feira (15/8/2026) um alerta contundente sobre o rumo da economia do país. Em entrevista ao também economista Marcos Lisboa, no videocast Desenquadrando, da Folha de S.Paulo, Fraga afirmou que o Brasil “repete erros” do passado e comparou o cenário atual ao período que antecedeu a recessão econômica no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, entre 2014 e 2015.

Para o ex-presidente do BC, responsável pela transição da economia brasileira à meta de inflação entre 1999 e 2003, a herança fiscal que está sendo montada para o próximo governo “vai ser maldita” e sugere que o país “está caminhando para uma situação difícil”. A frase é forte porque vem de quem esteve no comando da política monetária em um dos momentos de maior credibilidade da instituição.

“Ciclo político clássico” e gasto em ano de eleição

Armínio Fraga classificou o momento atual como parte de um “ciclo político clássico”, em que a alta de gastos públicos em ano eleitoral deixa o restante da economia “meio sem rumo”. A crítica centra-se em um padrão que, segundo ele, se repete há décadas na história brasileira: a expansão fiscal antes das urnas e o ajuste doloroso — ou a crise — que se segue.

“Por que a gente não aprende? Estamos de novo numa situação onde a política macro é totalmente descoordenada. Tem um Banco Central tentando cumprir seu mandato e segurar a inflação. E, do outro lado, tipo um cabo de guerra, tem gente justamente procurando de toda maneira gastar”, disse Fraga, em trecho divulgado pela reportagem.

A crítica à descoordenação entre o Banco Central — que mantém a taxa Selic em patamar elevado para conter a inflação — e a política fiscal — que segue expandindo o gasto público — não é nova no debate econômico, mas ganha peso quando sai da voz de um ex-presidente da instituição. Para Fraga, o resultado é um cabo de guerra em que o contribuinte paga o preço.

Desemprego em baixa mascara problema fiscal, diz economista

Dados positivos recentes da economia brasileira, como a queda da taxa de desemprego a 5,4% no trimestre até junho — o menor nível da série histórica — foram citados por Fraga como elementos que mascaram o verdadeiro tamanho do problema fiscal. Segundo ele, o aquecimento de curto prazo da atividade econômica dá uma falsa sensação de equilíbrio.

“Estamos aqui, outra vez achando que esquentar a economia a curto prazo vai resolver os nossos problemas, e não vai”, afirmou. A avaliação é central para sustentar a comparação com o pré-crise do governo Dilma: naquela ocasião, um conjunto de estímulos fiscais e subsídios manteve a economia aquecida temporariamente, mas culminou em uma das piores recessões da história do país, com PIB em queda, inflação alta e explosão do desemprego.

Crise já chega pelo crédito e pelo varejo, diz Fraga

O ex-presidente do BC afirma que os problemas fiscais começam a se manifestar de forma concreta na economia real, e em “ondas”. A primeira, segundo ele, atingiu o crédito pessoal — com “dezenas de milhões de inadimplências” — e a segunda já avança sobre o varejo.

“A primeira onda foi o crédito pessoal, com dezenas de milhões de inadimplências. Depois, o varejo, que em geral trabalha com margens pequenas e carregando estoque, então eles têm uma dívida natural. Esse setor foi dizimado”, disse Fraga na entrevista.

O tom é particularmente relevante porque as notícias do próprio dia 15/8/2026 dão contorno ao diagnóstico: o varejo vive um momento crítico, com a Casas Bahia — maior varejista do país — fechando 298 lojas, demitindo 1,9 mil funcionários e adiando a entrega de seu balanço financeiro, conforme reportagens do InfoMoney e do Valor Econômico. Sindicatos preparam ação coletiva contra as demissões, segundo o InfoMoney.

“Não houve austeridade”, diz ex-presidente do BC

Armínio Fraga rebateu um dos argumentos frequentemente usados no debate fiscal brasileiro — o de que a austeridade teria sido exagerada nas últimas décadas. Para ele, os dados mostram justamente o oposto: o gasto público cresceu de forma significativa em relação ao PIB.

“O gasto público no Brasil há uns 30, uns 40 anos atrás, era mais ou menos um quarto do PIB, e hoje deve ser um terço. Então subiu 9 pontos do PIB, mais ou menos. Então não teve austeridade. Acho que dá para dizer que houve falta de prioridade, isso sim, mas austeridade não teve”, afirmou.

A constatação se alinha com dados oficiais: a carga tributária brasileira atingiu recorde histórico de 32,4% do PIB em 2025, conforme levantamentos divulgados na semana anterior. O crescimento do gasto supera o crescimento da arrecadação justamente porque há um conjunto de despesas obrigatórias — previdência, subsídios, pessoal — que crescem atreladas à Constituição.

PIB per capita “medíocre” e a memória do primeiro governo Lula

Na avaliação do economista, o crescimento do PIB per capita brasileiro nas últimas três décadas foi “medíocre”, em grande parte por causa da trajetória fiscal. Fraga, no entanto, reservou um elogio ao início do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, período em que ele próprio comandava o Banco Central.

“Aquilo ali foi um momento maravilhoso. Mas, depois, em um ataque assim meio de amnésia, os velhos vícios e as velhas ideias voltaram”, afirmou. A fala insinua que, apesar de ter havido momento de credibilidade institucional e responsabilidade fiscal, o país voltou a cair em padrões que ele considera perigosos.

A entrevista foi concedida a Marcos Lisboa, presidente do Insper e um dos economistas mais influentes do país. O programa Desenquadrando é uma produção semanal da TV Folha, disponível no canal da Folha de S.Paulo no YouTube, e aborda temas que impactam a sociedade brasileira, incluindo políticas públicas, metas de inflação e investimentos em saúde e educação.

O que isso significa para o seu bolso

O alerta de Armínio Fraga não é apenas um debate entre economistas. As implicações são concretas e afetam diretamente o brasileiro comum:

1. Juros altos por mais tempo: se o Banco Central mantém a Selic elevada para compensar a expansão fiscal, financiamentos ficam caros — do financiamento de carro ao crédito consignado, passando pelo rotativo do cartão de crédito. Quem está endividado ou precisa de crédito sente diretamente o efeito.

2. Risco de recessão: a comparação com o pré-crise do governo Dilma não é fortuita. Se o alerta se concretizar, o risco de uma nova recessão significa menos empregos, menos renda e menos capacidade de pagamentos das famílias — em especial para quem trabalha como autônomo ou em setores sensíveis ao crédito.

3. Pressão sobre o orçamento doméstico: a alta de gastos públicos tende a pressionar a inflação, o que corrói o poder de compra das famílias. Itens como alimentos, combustíveis e tarifas públicas podem ficar mais caros.

4. Cuidado com o endividamento: o cenário descrito por Fraga, em especial a “dizimação” do varejo e dos inadimplentes de crédito pessoal, sugere que este não é um bom momento para ampliar dívidas. Se possível, reduza o uso do cheque especial e do rotativo do cartão — duas linhas que respondem por grande parte das inadimplências.

5. Reforce sua reserva de emergência: em ambientes de incerteza, ter uma reserva em investimentos de baixo risco (como Tesouro Selic ou CDB com liquidez diária) é mais importante do que nunca. O objetivo não é multiplicar o patrimônio, mas ter folga para atravessar um eventual aperto.

6. Acompanhe indicadores: o que separa uma opinião de um economista de uma tendência concreta é o conjunto de dados. Vale acompanhar o IPCA (inflação oficial), a Selic e o chamado “risco fiscal” — medido pelo spread dos títulos públicos e pelo risco Brasil. Quando eles sobem, é sinal de que o mercado financeiro está cobrando mais caro para financiar o país.

Um alerta de peso em um momento crítico

O que dá peso à fala de Armínio Fraga é o seu histórico: ele comandou o Banco Central no período em que o país adotou três pilares que estabilizaram a economia — Sistema de Metas de Inflação, câmbio flutuante e Lei de Responsabilidade Fiscal. Sua constatação de que o Brasil “repete erros”, portanto, conta com a autoridade de quem conhece em profundidade as instituições que hoje estão sob tensão.

A entrevista sai em um contexto particularmente sensível: o mercado financeiro já vinha mostrando sinais de preocupação com o cenário fiscal, com investidores estrangeiros retirando mais de R$ 11,9 bilhões da B3 em sete pregões seguidos no início de agosto e o JPMorgan tendo rebaixado a recomendação para o Brasil citando risco eleitoral. A queda do Ibovespa por oito sessões consecutivas é um dos sinais externos de que a ansiedade do mercado já se materializa.

Para o brasileiro que ainda se lembra da crise de 2014–2016 — quando a combinação de expansão fiscal, choque de preços e desconfiança do mercado culminou em mais de 14 milhões de desempregados — o alerta de Fraga funciona como um lembrete de que a história pode se repetir se as decisões não forem tomadas a tempo. A diferença é que, desta vez, o alerta vem antes — não depois.