O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil encerra nesta quarta-feira (5 de agosto de 2026) a sua reunião mais aguardada do segundo semestre, com o anúncio previsto após as 18h de mais um corte na taxa básica de juros da economia. A expectativa consolidada do mercado financeiro, segundo levantamento do g1 e do boletim Focus, é de uma redução de 0,25 ponto percentual, levando a Selic dos atuais 14,25% para 14% ao ano — o quarto corte seguido do atual ciclo de afrouxamento monetário.

Se confirmada durante a reunião iniciada na terça-feira (4), a nova Selic de 14% ao ano representará o menor patamar da taxa básica desde março de 2025, ou seja, em pouco mais de um ano. O movimento recoloca o Brasil em uma trajetória de queda gradual de juros, alinhada com a desaceleração da inflação observada nos últimos meses — mas dentro de um cenário externo ainda marcado pela incerteza geopolítica e pela tensão no Oriente Médio, que elevou o preço internacional do petróleo e mantém viva a preocupação com o repasse aos combustíveis no Brasil.

Mercado já precifica o corte e projeta 13,75% para dezembro

A leitura do boletim Focus, divulgado na segunda-feira (3) pela instituição, reforçou a percepção de que o ciclo de queda ainda tem fôlego. Pela primeira vez desde março, o mercado reduziu a expectativa para a Selic em 2026, com a projeção caindo para 13,75% ao ano até o fim de dezembro — o que embute mais um corte de 0,25 ponto na reunião de novembro. As projeções para 2027 e 2028 permaneceram estáveis, em 12% e 10,5%, respectivamente.

As consultorias que mais influenciam a ponta compradora do mercado — XP, Itaú BBA e Bank of America — passaram a apontar dois cenários sobre a mesa para o comunicado do Copom:

  • Cenário de corte confirmado (mais provável): queda de 0,25 ponto, levando a Selic a 14%. Seria o quarto corte seguido e o primeiro movimento de baixa depois de uma sequência de ajustes calibrados. O mercado busca no comunicado sinais sobre se o BC encerra o ciclo aqui ou mantém a porta aberta para novo corte em novembro.
  • Cenário de pausa (menos provável): manutenção em 14,25% para aguardar leitura mais nítida da inflação de serviços e do núcleo, sobretudo em ano de fortes estímulos fiscais e reajustes de tarifas.

Dados de inflação mais benignos no curto prazo

O corte que deve ser anunciado nesta quarta-feira tem como munição principal o comportamento favorável dos indicadores de preços recentes. O IPCA-15 de julho surpreendeu significativamente para baixo, com uma composição mais benigna e sinais encorajadores nos indicadores de núcleo. É o que avalia Marco Antonio Caruso, economista do Santander, em comunicado a clientes.

“Os dados não resolvem o problema da inflação, nem eliminam o fato de que a inflação de núcleos e a de serviços permanecem acima dos níveis compatíveis com a meta. No entanto, eles reduzem a urgência de uma mudança para uma postura mais restritiva e reforçam a visão de que a deterioração qualitativa da inflação pode ter deixado de se acelerar.”

Em outras palavras: o Copom tem espaço para o corte, mas o economista ressalva que a inflação de serviços e os núcleos seguem acima do que seria consistente com a meta central. O banco central mantém, portanto, atenção redobrada ao horizonte relevante da política monetária — que hoje aponta para o primeiro trimestre de 2028.

Projeções do mercado ainda acima da meta

Apesar do cenário de curto prazo favorável, as projeções para os próximos anos seguem desconfortáveis:

  • 2026: inflação projetada em 5,03%
  • 2027: 4,22%
  • 2028: 3,80%

Todas acima da meta central de 3% que vigora no sistema de meta contínua, cuja banda de tolerância vai de 1,5% a 4,5%. Foi justamente a permanência da inflação seis meses seguidos acima da meta, em junho, que obrigou o Banco Central a divulgar uma carta pública explicando os motivos — medida prevista no regime de metas quando o descumprimento se prolonga.

Economistas pedem cautela na comunicação do BC

Para Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank, o atual cenário da economia brasileira permite a continuidade do ciclo gradual de cortes nesta reunião, mas recomenda cautela na comunicação e menor comprometimento com os passos futuros da política monetária.

“O Comitê deve justificar a continuidade da calibração dos juros diante da projeção de inflação ao redor da meta no horizonte relevante. No entanto, as expectativas de inflação acima da meta, o mercado de trabalho aquecido e a resiliência da atividade econômica exigem ainda uma política monetária contracionista. A ausência de resolução do conflito no Oriente Médio e o ambiente externo muito incerto reforçam a necessidade de prudência adicional na condução dos juros.”

A leitura do economista reflete um sentimento compartilhado por boa parte do mercado: o corte de 0,25 ponto é justo diante dos dados, mas o Copom não deve sinalizar abertamente uma sequência de quedas automáticas — sobretudo diante do ambiente externo complexo.

Cenário externo: Oriente Médio, petróleo e Federal Reserve

Dois elementos externos pesam na decisão desta quarta-feira:

  1. Retomada da tensão no Oriente Médio. O conflito elevou o preço internacional do barril de petróleo, com potencial de pressionar a inflação brasileira via combustíveis. Nesta quarta, o barril de Brent subia 1,45%, cotado perto de US$ 80,51; o WTI avançava 0,62%, a US$ 76,24. Apesar disso, há sinais de que um acordo para a reabertura do Estreito de Ormuz possa sair nos próximos dias, com conversas entre Irã e Omã mediadas também pela diplomacia americana — o que ajudaria a aliviar a pressão sobre os preços.
  2. Federal Reserve em pausa. Na semana passada, o banco central americano manteve a taxa básica dos EUA inalterada na faixa de 3,50% a 3,75%. A decisão retirou parte da pressão sobre o real e permitiu ao Copom focar na dinâmica doméstica.

O que isso significa para o bolso do brasileiro

A queda da Selic não se traduz em alívio imediato para o consumidor — os efeitos plenos da mudança demoram de 6 a 18 meses para percorrer a economia, segundo a própria explicação do BC. Mas a trajetória de queda tende a beneficiar, ao longo do tempo, três pontas:

  • Crédito mais barato. Juros de financiamentos, empréstimos pessoais e cartão de crédito tendem a recuar gradualmente, sobretudo as modalidades atreladas ao CDI. Já é possível observar, ao longo de 2026, leve recuo dos juros praticados por bancos em créditos de pessoa física.
  • Rentabilidade da renda fixa. CDBs, Tesouro Selic e Tesouro IPCA+ devem render menos à medida que a Selic cai. Quem está montando uma reserva de emergência agora pode aproveitar taxas ainda altas para travar rentabilidades garantidas em prazos mais longos.
  • Cenário para a bolsa. A queda de juros costuma dar sustentação ao mercado de ações, sobretudo para empresas de crescimento e bancos. Nesta quarta-feira, o Ibovespa abria em alta, operando próximo de 178.886 pontos (+0,56%).

Dólar opera em queda, mas acumula alta na semana

Na manhã da decisão, o dólar comercial recuava 0,36%, negociado perto de R$ 5,1129. No acumulado da semana, porém, a moeda acumula alta de 1,22%; no acumulado do ano, recuo de 6,51% — reflexo de um real que se valorizou de forma consistente em 2026, ancorado pela atratividade dos juros brasileiros e pelo fluxo positivo de investidores estrangeiros.

Para o consumidor que planeja viagens internacionais ou compras no exterior, a volatilidade do dólar nas próximas semanas deve ser monitorada — especialmente porque a queda da Selic, em tese, reduz parte do atrativo do real frente ao dólar.

Olho no comunicado do Copom

Para além do número em si, o mercado vai dissecar o comunicado oficial do Copom e a minuta da ata, divulgada na semana seguinte, em busca de três sinais:

  • Tom hawkish ou dovish: se o BC ressalta riscos de inflação, soa mais cauteloso; se prioriza o cenário de desaceleração, abre espaço para mais cortes.
  • Sinalização sobre novembro: o mercado quer saber se há compromisso com um novo corte em novembro ou um movimento isolado.
  • Reação às incertezas externas: como a instituição avalia o impacto do petróleo e do cenário global sobre a inflação brasileira até 2028.

A divulgação da decisão está prevista após o fechamento dos mercados, às 18h (horário de Brasília), desta quarta-feira, 5 de agosto de 2026. O comunicado do Copom sairá logo na sequência, e a ata completa será divulgada na manhã do dia 11.