O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a pressionar publicamente as petroleiras americanas nesta semana depois que o preço médio da gasolina no país atingiu US$ 4,095 por galão — cerca de 30% acima do registrado no mesmo período de 2025, segundo dados da American Automobile Association (AAA) divulgados na segunda-feira (4). Em publicação na Truth Social e em declarações a jornalistas na Casa Branca, Trump reclamou dos lucros das empresas do setor e afirmou que os consumidores não deveriam arcar com preços tão elevados, que dispararam após a escalada do conflito com o Irã no Oriente Médio.
A alta internacional, contudo, não é um fenômeno exclusivamente americano. Como o petróleo é uma commodity negociada globalmente, qualquer ameaça à oferta mundial afeta rapidamente as cotações internacionais — e, com elas, o preço da gasolina nas bombas do Brasil. A pergunta que se coloca, para o consumidor brasileiro comum, é direta: até que ponto o rali do barril deve chegar ao posto na esquina de casa?
Por que a gasolina disparou nos EUA
A origem da alta está, em grande parte, no Oriente Médio. A crise no Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% da produção mundial de petróleo — fez disparar o preço internacional do barril. Segundo dados compilados pelo g1, o Brent (a principal referência para o petróleo no mercado internacional) passou de cerca de US$ 70 para US$ 126 no pico da tensão, antes de recuar para perto de US$ 80 nesta terça-feira (4), com sinais de avanço nas negociações entre EUA e Irã.
O efeito cascata foi imediato. Juntas, ExxonMobil e Chevron lucraram US$ 29 bilhões (cerca de R$ 147 bilhões) no segundo trimestre — mais de três vezes o valor registrado no mesmo período do ano anterior, segundo balanço divulgado esta semana. Diante disso, Trump escalou a cobrança:
“Não gosto disso. Eu deveria ser a última pessoa a dizer isso, porque sou um grande defensor da livre iniciativa, ninguém mais do que eu. Estão surpresos por eu dizer isso? Vou dizer em alto e bom som. Não estou satisfeito.”
O presidente também criticou publicamente o CEO da Chevron, Mike Wirth, por não reconhecer o papel de sua administração no fortalecimento da indústria, e estendeu as críticas à ExxonMobil, uma das maiores produtoras de petróleo do mundo.
Por que Trump tem mão limitada sobre os preços
Para especialistas ouvidos pelo g1, a pressão de Trump sobre as petroleiras tem efeito político, mas capacidade limitada de alterar os preços pagos pelo consumidor. A razão é estrutural: embora os EUA sejam hoje o maior produtor mundial de petróleo, a gasolina vendida no país continua fortemente influenciada pelas cotações internacionais da commodity, pela estrutura do parque de refino e pelos custos de distribuição.
Parte das refinarias americanas foi projetada para processar tipos de petróleo mais pesados do que o atualmente produzido em grande escala no país. Por isso, empresas americanas exportam parte do petróleo extraído e continuam importando outros tipos de petróleo cru para abastecer suas refinarias — o que torna o mercado interno exposto às oscilações globais.
“Os Estados Unidos exportam parte do petróleo que produzem e importam outro tipo de petróleo para abastecer suas refinarias. Isso faz com que os preços internos acompanhem muito mais de perto as oscilações do mercado internacional.”
A explicação é de Nivaldo de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele lembra ainda que a cadeia de combustíveis nos EUA é formada por diversas empresas privadas responsáveis pela produção, refino, distribuição e revenda — o que reduz a capacidade de coordenação do governo sobre o setor.
E o Brasil? Por que a Petrobras tem papel diferente
A boa notícia para o bolso do brasileiro é que a cadeia de combustíveis nacional funciona de forma bem menos pulverizada do que a americana, e isso oferece uma certa margem de amortecimento. A Petrobras ainda concentra boa parte da produção de petróleo e da capacidade de refino no país — o que garante maior integração entre essas etapas da cadeia.
“A integração entre produção e refino permite amortecer parte dos impactos das oscilações internacionais. Isso não significa que o Brasil fique imune às altas do petróleo, mas o repasse pode ocorrer de forma diferente do observado nos Estados Unidos.”
A análise é novamente de Castro, da UFRJ. Na prática, isso significa que, mesmo quando o barril dispara lá fora, a Petrobras nem sempre repassa o aumento integral e imediatamente para os preços praticados nas refinarias — decisão que pode moderar o impacto no preço final da gasolina na bomba. Não é blindagem total, mas é uma diferença relevante em relação ao mercado americano.
Mesmo assim, a economia brasileira não está imune. Estudos da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que, em média, cerca de 40% do preço da gasolina nas bombas brasileiras vem do preço do prodotto nas refinarias (que acompanha a cotação internacional), enquanto o restante se divide entre impostos (ICMS, CIDE e PIS/Cofins), frete, margem de distribuição e margem de revenda. Qualquer alta sustentada do barril termina, cedo ou tarde, no preço pago pelo consumidor.
Os preços não caem tão rápido quanto sobem
Outro efeito que costuma irritar o consumidor é a chamada assimetria de repasse: o petróleo sobe, e o preço na bomba logo acompanha; mas, quando o barril recua, o alívio no posto demora semanas — ou não chega integralmente. Especialistas explicam que isso não é necessariamente conluio, mas o efeito natural do estoque e dos contratos que sustentam a cadeia de refino.
“As refinarias trabalham com estoques e contratos de curto, médio e longo prazo. Por isso, uma eventual queda do petróleo leva tempo para chegar ao consumidor.”
A explicação é do próprio Castro, da UFRJ. O consumidor final, contudo, raramente consegue perceber essa dinâmica na prática — e o sentimento dominante, no posto, é o de que “só sobe”.
O efeito cascata sobre o bolso do brasileiro
A gasolina é um dos itens que mais pesam no índice de inflação sentido pelo consumidor. A alta internacional do petróleo pressiona três frentes que afetam diretamente o brasileiro:
- Combustível na bomba. Gasolina acima de R$ 7 na major parte das capitais reduz a renda disponível de quem depende de carro — seja um autônomo de aplicativo, um trabalhador que se desloca para o trabalho ou uma família de periferia com um carro financiado.
- Fretes e logística. Diesel acima da média encarece o transporte de alimentos e bens. Quase tudo o que chega ao supermercado brasileiro viaja por rodovias, e aumento de frete só termina no preço da mercearia.
- Inflação geral. Pelo peso no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a gasolina sozinha pode segurar a queda da inflação, adiando cortes de juros pelo Banco Central e mantendo a Selic em patamar mais alto por mais tempo — o que, por sua vez, mantém a parcela do financiamento imobiliário e do crédito mais cara.
A consequência é uma cadeia que começa no estreito de Ormuz, passa pela Petrobras e termina no extrato bancário do brasileiro comum. Quanto maior a tensão geopolítica, maior a probabilidade de alta sustentada — e menor o espaço para manobra do consumidor.
Como cortar o impacto no bolso
Diante de um cenário de alta volatilidade, pequenas decisões podem fazer uma diferença considerável. Algumas dicas que se aplicam ao brasileiro que usa o carro como ferramenta de trabalho ou para deslocamento diário:
- Compare gasolina e etanol a cada abastecimento. A regra prática: o etanol compensa quando custa, no máximo, 70% do preço da gasolina.
- Use aplicativos de comparação de preço (como o Menor Preço) para identificar postos com até R$ 0,50 de diferença por litro.
- Antecipe abastecimentos antes de feriados prolongados e finais de semana, quando os preços costumam ser reajustados para cima.
- Mantenha pneus calibrados e revisões em dia. Pneu murcho e filtro de ar sujo gastam até 5% a mais de combustível.
- Considere transporte público para trajetos curtos. Em cidades com bilhete único, viagens integradas de ônibus + metrô podem custar menos da metade do Uber ou do próprio carro.
O governo federal tem instrumentos adicionais para amortecer a alta — como a CIDE (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico), que é um imposto cobrado sobre combustíveis e pode ser reduzido temporáriamente para conter repasses. Em episódios anteriores de alta aguda, a equipe econômica reduziu a alíquota para segurar o preço na bomba — uma decisão que tem efeito imediato, mas custo fiscal. Não está claro, ainda, qual será o movimento da gestão Lula diante dos picos do barril em agosto.
O árabe estrangulando o bolso brasileiro
Se a tensão no Estreito de Ormuz de fato evoluir para bloqueio ou interrupção mais duradoura, projeta-se que o barril possa voltar a testar a faixa de US$ 100. Nesse cenário, a gasolina brasileira estaria submetida a sua maior pressão em mais de dois anos, com potencial de estrangular não apenas o bolso do motorista, mas o ritmo de queda da inflação e a velocidade do atual ciclo de corte de juros do Banco Central — atualmente em marcha de redução gradual da Selic.
Por ora, o mercado respira com a notícia, divulgada nesta quarta-feira (5), de que EUA e Irã começam a destravar sanções e de que existe um acordo preliminar sobre a rota de Ormuz, intermediado por Omã. Mas, enquanto o acordo não consolida e o conflito permanecer latente, a gasolina continuará como uma variável imprevisível no orçamento de milhões de brasileiros — um lembrete de que, no século XXI, o preço que se paga na bomba do posto é, também, um desdobramento de quem governa o estreito a 12 mil quilômetros de distância.