Quem tentou comprar passagem aérea nos últimos meses percebeu na prática: o preço da viagem de avião disparou. Agora há uma leitura oficial para o que o consumidor sentiu na tela de emissão de bilhetes. A alta do petróleo no mercado internacional, impulsionada pelos conflitos no Oriente Médio, elevou em R$ 5,2 bilhões os gastos das companhias aéreas brasileiras com querosene de aviação (conhecido pela sigla QAV) ao longo de 2026.

O dado é da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) e mostra a dimensão do repasse. Com o reajuste de 1,9% anunciado pela Petrobras em 1º de agosto, o aumento acumulado do combustível chegou a 49% desde o fim de fevereiro, quando o conflito no Oriente Médio teve início. Para quem está de olho no orçamento doméstico e sonhando com as férias, a conta não fecha sozinha: o combustível passou a representar 39% dos custos operacionais das companhias aéreas, ante 32% antes do início da guerra.

O que exatamente aconteceu com o querosene

O querosene de aviação não é um combustível qualquer: representa o item de maior peso na estrutura de custo de qualquer cia.Em condições normais, o QAV já gira em torno de 30% a 35% dos gastos operacionais. O que mudou em 2026 é que, com o início do conflito entre Estados Unidos e Irã em 28 de fevereiro, uma das principais rotas globais de petróleo — o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% de todo o comércio mundial de petróleo — entrou em alerta. O barril Brent, principal referência internacional, saltou de US$ 67,82 no segundo trimestre de 2025 para US$ 104,52 no mesmo período de 2026 — uma alta de 54%.

Como o preço do QAV acompanha de perto a cotação do petróleo, o custo do querosene praticamente dobrou entre abril e maio. O repasse para as bombas e, em seguida, para os bilhetes é inevitável quando o custo do combustível sobe a essa velocidade. Como os bilhetes são precificados ao longo do tempo, boa parte do reajuste ainda está em curso.

Os números que pesam no seu bolso

A aritmética das cias aéreas é simples de entender:

  • Antes do conflito (fevereiro de 2026): QAV representava 32% do custo operacional.
  • **Após o reajuste de 1º de agosto: o QAV passou a representar 39% do custo operacional.
  • Acumulado no ano: alta de 49% no preço do combustível, com novos reajustes previstos.
  • Gasto adicional estimado em 2026: R$ 5,2 bilhões a mais com querosene de aviação.

Quando uma empresa que opera milhares de voos por mês vê 7 pontos percentuais da sua estrutura de custo migrarem para cima, a única forma de repor a margem é repassando para o bilhete. Por isso, indústria, comércio e turistas estão pagando mais caro para voar, em todo o Brasil.

BNDES entra na jogada com R$ 8 bilhões em crédito

Para evitar um cenário ainda pior, com companhias aéreas descapitalizadas, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou no final de julho uma linha de crédito de até R$ 8 bilhões destinada às empresas de transporte aéreo regular doméstico. Os recursos, provenientes do Fundo Nacional de Aviação Civil (FNAC), poderão ser utilizados até dezembro de 2026 e beneficiarão Azul, Gol, Latam e a regional Abaeté.

A medida dá fôlego às cias diante da forte alta dos custos. Sem esse socorro, o risco era de falência de uma ou mais operadoras, com efeito direto sobre a oferta de voos e, na sequência, sobre o preço das passagens — um mercado mais concentrado tende a precificar ainda mais caro. O BNDES, com o crédito, evita que o problema do combustível vire também um problema de concentração no setor.

Por que a passagem que você comprou subiu tanto

Quando você comprou uma passagem em janeiro, pagou um dado preço. Se fez isso agora, em agosto, pagou bem mais. A diferença é a velocidade do repasse. As cias aéreas praticam o chamado “yield management”: o preço do bilhete é recalculado a cada momento, conforme demanda, oferta e — fundamentalmente — o custo esperado do combustível no dia do voo.

Com o QAV 49% mais caro e ainda subindo, o sistema embarcou nas passagens:

  • Voos domésticos: alta média estimada em dois dígitos no ano, com tarifas mais caras especialmente em datas comemorativas.
  • Voos internacionais: sofreram dobrado, combinando a alta do combustível com a valorização do dólar (acima de 10% no ano).
  • Tarifas de classe econômica: segmento mais sensível a preço, sofre os maiores reajustes percentuais, justamente o que mais afeta a classe média brasileira.

O que isso significa para o bolso do brasileiro

O aperto tem três dimensões práticas para o orçamento doméstico:

1. Viagens em datas comemorativas ficaram proibitivas. Natal, Réveillon, Corpus Christi, feriados escolares: nas datas de pico, o custo da passagem pode ser duas a três vezes o valor cobrado em períodos de baixa temporada. Para uma família de quatro pessoas, a viagem natalina pode facilmente sair por R$ 12.000 só em passagens — se a família tradicionalmente viaja nessas datas, o impacto no fluxo de caixa do ano é enorme.

2. O custo da visita interurbana deixou de ser pequeno. Em um Brasil gigante, em que cônjuge, pais e filhos moram em estados diferentes, as visitas periódicas eram rotina acessível. Com a passagem de R$ 400 a R$ 1.200 em trechos domésticos, a “visita de fim de semana” virou item de luxo.

3. A assistência médica pode ficar mais cara. Plans de saúde corporativos incluem pontualmente resgate aéreo para pacientes em casos de urgência em cidades sem infraestrutura de saúde. Operadoras que oferecem esse tipo de vantagem costumam reajustar mensalidades: o custo do voo médico é repassado para o plano.

O que fazer: estratégias concretas para o viajante

Diante de um cenário em que o querosene segue alto e novos reajustes são esperados, há alternativas para reduzir o impacto:

A. Antecipe passagens para feriados e férias. Comprar com dois a três meses de antecedência costuma garantir tarifas 30% a 40% menores que o pico. Em vez de comprar em dezembro, compre em setembro para o Réveillon.

B. Use alertas de preço. Ferramentas como Google Flights, Skyscanner e MaxMilhas enviam notificação quando o trecho desejado atinge um valor recuo. Configure para três ou quatro trechos e aguarde para encomendar quando o alerta disparar.

C. Considere viajar em baixa temporada. Passagens meados de março, maio e outubro são consistentemente mais baratas. Para famílias com filhos em idade escolar, dividir as férias em períodos mais curtos (uma viagem em janeiro e outra em julho) pode ser melhor que concentrar tudo em pico de alta.

D. Avalie transportes alternativos. Para trechos de até 500 km, ônibus executivo e semileito, ou carona de aplicativo, podem ser mais baratos que o voo. Vale também o aluguel de carro compartilhado entre duas famílias.

E. Acumule milhas com cartão de crédito. Para quem já tem cartão, pagar boletos e inscrições no cartão para acumular milhas é melhor que deixar o limite parado. Programas que dão de 1,2 a 1,6 milhas por dólar gasto ajudam a zerar os trechos aéreos em datas mais caras.

Conclusão

O R$ 5,2 bilhão a mais que as cias aéreas gastaram com querosene em 2026 sai, no final das contas, do bolso de quem voa. Com o combustível corporativo 49% mais caro e o Brent ainda acima de US$ 80, a pressão sobre as passagens não deve afrouxar no curto prazo. O crédito de R$ 8 bilhões do BNDES evita que o problema vire falência, mas não reduz o preço do bilhete— contabilidade não é mágica.

Para o brasileiro, a mensagem menos amarga é que dá para se proteger: comprando com antecedência, evitando picos, usando alertas de preço e substituindo voos curtos por alternativas de terra. A guerra no Oriente Médio está longe, mas os efeitos chegam ao seu orçamento de viagem em forma de preço de bilhete. Reorganize a sua agenda de viagens neste ano e o seu orçamento vai agradecer.