O Nubank registrou lucro líquido recorde de US$ 1,061 bilhão no segundo trimestre de 2026, informou a fintech nesta quinta-feira (13). O resultado superou as projeções de analistas, que esperavam US$ 964,5 milhões, e representa alta de aproximadamente 49% na comparação com o mesmo período de 2025. O anúncio fez as ações da empresa dispararem 13,64% no pré-mercado da Bolsa de Nova York (Nyse), cotadas a US$ 15,83 por volta das 8h15 desta sexta-feira (14).

O desempenho reacendeu o otimismo dos investidores em relação ao banco digital — maior instituição financeira da América Latina por número de clientes — num momento de forte cautela com o mercado de crédito brasileiro, marcado por juros altos, endividamento recorde das famílias e inadimplência em elevação.

Desenrola tem efeito limitado, diferente do temido

Antes do balanço do segundo trimestre, circulava entre analistas a percepção de que o Desenrola, programa federal de renegociação de dívidas, poderia ter um impacto significativo nos resultados do Nubank, dada a forte exposição da fintech ao cliente de menor renda. O receio era que a repactuação de débitos reduzisse a receita futura com encargos desses clientes e que a queda na inadimplência acabasse encolhendo os ganhos com provisões revertidas.

No fim das contas, o efeito foi contido. Em teleconferência com analistas, a administração do Nubank classificou o impacto do Desenrola como não recorrente e ressaltou que, mesmo excluindo o programa, a empresa teria gerado mais de US$ 1 bilhão em lucro líquido no trimestre. O benefício nas provisões ficou limitado a menos de US$ 10 milhões, com impacto mínimo na inadimplência de 15 a 90 dias e apenas leve melhora nos indicadores acima de 90 dias.

“Embora positivo, o impacto do Desenrola foi caracterizado pela administração como não recorrente, enfatizando que a empresa ainda gerou mais de US$ 1 bilhão em lucro líquido, excluindo o programa”, explicaram analistas do Citi em relatório. A maior parte do aumento dos lucros do trimestre veio de desempenho operacional mais forte — e não do programa federal.

Margem ajustada ao risco surpreende

Um dos pontos mais celebrados do balanço foi a margem líquida de juros ajustada ao risco, de 12,4%, bem acima das expectativas do mercado, que apontavam 10,4%. Para analistas do J.P. Morgan, trata-se de “um resultado acima do esperado”, embora o Desenrola possa ter contribuído.

“Consideramos isso um resultado acima do esperado, embora o programa Desenrola possa ter contribuído, e é difícil reclamar de um aumento tão expressivo na margem líquida ajustada ao risco (com ou sem Desenrola) e um ROE (retorno sobre o patrimônio) de 33%”, apontaram os analistas do banco americano.

A margem ajustada ao risco mede, de forma simplificada, o quanto o banco ganha com juros após descontar calotes — e é um dos indicadores mais observados em bancos. Um ROE de 33% é considerado excepcionalmente elevado para o setor, mesmo para bancos digitais.

Analistas do Safra também saudaram o desempenho. “No geral, apesar da pressão contínua sobre os indicadores de qualidade de ativos, o Nubank continua a apresentar níveis de rentabilidade bem acima dos seus pares. Nos níveis atuais de margem líquida de juros ajustada ao risco, acreditamos que a empresa mantém ampla capacidade de geração de lucros para sustentar um ritmo agressivo de crescimento”, afirmaram.

Inadimplência e cenário para 2027: o outro lado

Apesar da festa, algumas ressalvas permanecem. Analistas apontam que o principal debate sobre o Nubank deixou de ser a sua capacidade de crescimento para a pergunta de se a fintech conseguirá manter o ritmo atual de expansão e rentabilidade num ambiente de crédito mais complexo — com destaque para o alto nível de endividamento das famílias brasileiras.

Na visão do J.P. Morgan, há cautela específica em relação a 2027, devido às perspectivas desafiadoras para o Brasil. A boa notícia, segundo o banco, é que boa parte desse cenário negativo já estaria precificada nos múltiplos atuais do Nubank. Além disso, à medida que a fintech avança em produtos mais seguros e ganha relevância em outros países onde opera (México e Colômbia), a volatilidade derivada dos ciclos de crédito brasileiros tende a perder peso no resultado consolidado.

O que isso significa para o seu bolso

A notícia é relevante para diferentes públicos:

  • Para os mais de 110 milhões de clientes do Nubank, o resultado robusto tende a reforçar a estabilidade da fintech, com sinais positivos para a manutenção de serviços, investimentos em tecnologia e novas ofertas. Um banco rentável é um banco que tem fôlego para continuar competindo — e, num setor dominado por bancos tradicionais, a concorrência da Nubank costuma se traduzir em produtos mais baratos para o consumidor final.
  • Para quem investe em ações, o balanço reacende o debate sobre a tese da fintech. A forte alta das ações no pré-mercado sinaliza que o mercado premiou quem já estava posicionado — e não raro esse tipo de disparada abre espaço para realização de lucros nos dias seguintes. Como sempre, decisões de investimento devem ser tomadas com base em objetivos de longo prazo e não em reações de curto prazo a um balanço.
  • Para quem observa o setor de crédito, o resultado do Nubank confirma que mesmo num ambiente hostil de juros e inadimplência, players com modelo digital, escala e cliente de baixa renda podem ser altamente rentáveis — contanto que a margem ajustada ao risco seja preservada. É um sinal relevante para quem avalia investir em ações do setor financeiro como um todo.

É importante lembrar também que, embora o lucro recorde tenha “falado mais alto” que o receio com inadimplência, conforme destacaram analistas, esse receio não desapareceu. O brasileiro segue endividado — o endividamento das famílias atingiu recorde pelo sexto mês seguido, conforme levantamento da CNT/CNC divulgado recentemente — e qualquer deterioração adicional do emprego ou da renda pode reacender debates sobre a qualidade da carteira de crédito das fintechs e dos bancos de varejo.


Com informações de Valor Econômico, InfoMoney e relatórios de analistas (Citi, J.P. Morgan, Safra) divulgados em 14 de agosto de 2026.