O presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, fez nesta quinta-feira (6 de agosto de 2026) um alerta direto sobre o cenário do crédito no Brasil: os juros brasileiros seguem elevados em um patamar que, segundo o executivo, ninguém defende, e isso deve continuar a se refletir em altos níveis de inadimplência e a impactar fortemente o orçamento das famílias. A declaração foi dada em entrevista ao Radar GloboNews, um dia após o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central concluir a sua quarta queda seguida da taxa básica de juros, levando a Selic aos 14% ao ano — o menor patamar desde março de 2025.
“Não há quem defenda juros nesse patamar. O juro real [descontado a inflação] no Brasil, hoje, é muito alto […] e o que a gente precisa realmente é trabalhar para levar as taxas para um patamar mais baixo”, afirmou Maluhy Filho. Segundo o executivo, o ideal seria que as taxas caíssem para apenas um dígito, algo entre 1% e 9% ao ano — um horizonte que, mesmo com o ciclo de cortes em curso, ainda está longe de se concretizar.
“É assim que as famílias tomam boas decisões”
Para o presidente do maior banco privado do país, o impacto dos juros altos não se limita ao custo do crédito — ele afeta diretamente a qualidade das decisões financeiras das famílias e a capacidade de investimento das empresas. “É [com os juros em patamares mais baixos] que conseguimos crescer a carteira [de crédito] com vigor, onde as famílias de fato tomam boas decisões de financiamento de imóvel, consumo ou da compra de um veículo, e onde as empresas conseguem investir com muito mais qualidade”, completou.
A leitura do executivo se alinha ao que diversos indicadores oficiais têm mostrado nas últimas semanas. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC) ainda nesta quinta-feira, 82% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida em julho — o sexto recorde consecutivo da série histórica. O dado reforça a fala do presidente do Itaú: o brasileiro está devendo mais, pagando juros pesados sobre essas dívidas e, em muitos casos, com dificuldades para honrar os compromissos.
O alerta de Maluhy Filho também acompanha a posição de outros líderes do sistema financeiro, que vêm cobrando publicamente uma trajetória mais acelerada de queda da Selic. Apesar do corte confirmado pelo Copom na véspera, o comunicado do Banco Central foi interpretado pelo mercado como conservador, deixando em aberto a possibilidade de um novo corte na reunião de novembro, mas sem compromissos. “O comunicado do Banco Central foi conservador ao mostrar uma preocupação com o cenário macroeconômico, deixando em aberto a possibilidade de um corte na próxima reunião do Copom”, comentou o presidente do Itaú.
Bets deterioram qualidade do crédito do brasileiro
Um outro ponto da entrevista que merece destaque foi o que Maluhy Filho disse sobre apostas esportivas online. Para o executivo, quem usa frequentemente as plataformas de bets tends a ter uma qualidade de crédito pior ao longo do tempo — o que reduz a capacidade de tomar crédito sob condições razoáveis e compromete ainda mais o orçamento doméstico.
“É muito importante dizer que todo cidadão que acaba fazendo uso das bets tem uma qualidade de crédito pior com o passar do tempo. Não é nosso papel defender ou não [as apostas], mas é dizer que, se não for feito com moderação e cuidado, você muitas vezes pode acabar comprometendo o orçamento da família”, disse Maluhy Filho.
A fala do executivo do Itaú converge com estudo recente apontado pelo g1, segundo o qual as bets tiraram R$ 62,5 bilhões das famílias brasileiras em 2025 — o equivalente a 0,68% da renda disponível dos lares. A combinação entre apostas online, juros elevados e crédito caro é apontada por economistas como um novo fator de pressão sobre o orçamento, agravando um quadro de endividamento que já vinha se deteriorando há meses.
“A gente tem visto todos os indicadores de mercado piorando de forma muito relevante. E o principal produto do banco é entregar crédito para a sociedade. Quando o crédito passa a ter uma inadimplência alta, todos nós perdemos com isso”, afirmou o presidente do Itaú. A mensagem reforça que o custo social dos juros altos não é apenas um problema individual de cada família — é um problema sistêmico, que afeta toda a cadeia do crédito no país.
Recalibragem fiscal e eleições
O presidente do Itaú também abordou temas sensíveis para o eleitor brasileiro neste ano de eleição presidencial. Segundo Maluhy Filho, apesar da importância na manutenção das políticas sociais e de transferência de renda, o governo precisa recalibrar o quadro fiscal — ou seja, ajustar as contas públicas para que benefícios sejam prioritariamente correspondentes a capacidade de pagamento do Estado.
“Ainda de acordo com o executivo esse cenário somado aos juros ainda elevados no país também tendem a manter o difícil acesso ao crédito”, relata a reportagem do g1. Em outras palavras, ainda que programas como o Bolsa Família sejam fundamentais para milhões de brasileiros, o desequilíbrio fiscal do Estado tende a pressionar os juros para cima, dificultando o crédito para a classe média e para os pequenos empreendedores.
As declarações chegam em um momento em que o ministro da Fazenda, Dario Durigan, admitiu também nesta quinta-feira preocupação com a trajetória da dívida pública brasileira e falou em “redução de benefícios e controle de gastos” para melhorar as contas. A convergência entre o discurso do líder do maior banco privado e o do ministro da Fazenda é significativa e sugere que, independentemente do resultado eleitoral do próximo mandato, algum ajuste fiscal deverá estar no horizonte — com impactos diretos sobre programas sociais, benefícios e impostos.
Resultado do Itaú no segundo trimestre
A fala de Maluhy Filho vem embalada pelos resultados expressivos do banco no segundo trimestre de 2026. O Itaú registrou um lucro de R$ 12,4 bilhões entre abril e junho, um aumento de 7,8% em comparação aos mesmos três meses de 2025. A carteira de crédito do banco fechou junho em R$ 1,5 trilhão — avanço de 9,6% em relação ao segundo trimestre do ano anterior e de 2,7% na comparação trimestral.
Apesar do lucro robusto, o executivo fez questão de destacar que parte desse desempenho reflete justamente a prudência do banco diante de um cenário de risco elevado de inadimplência. O Itaú tem sido mais seletivo na concessão de crédito, priorizando clientes com melhor histórico de pagamento — o que ajuda a explicar por que muitos brasileiros têm relatado dificuldade em conseguir financiamento ou empréstimo, mesmo com o banco apresentando resultados recordes.
O executivo também comentou brevemente o caso Americanas e as investigações do Banco Master, defendendo a integridade das instituições financeiras afetadas e refutando hipótese de conivência com fraudes. Mas esse assunto, embora importante para o mercado financeiro, distancia-se do bolso do cidadão comum.
O que isso significa para o seu bolso
As declarações do presidente do Itaú ajudam a traduzir, em termos práticos, o que a queda da Selic de 14,25% para 14% significa — e, principalmente, o que ela ainda não significa. Para quem está pagando dívida, financiamento ou cartão de crédito, vale entender o quadro:
A queda da Selic não chega imediata ao consumidor. Mesmo com a redução de 0,25 ponto aprovada pelo Copom, os bancos costumam repassar lentamente a queda para as taxas cobradas das famílias. Financiamentos já contratados com taxa prefixada, inclusive, não mudarão nada; apenas operações pós-fixadas (como algumas modalidades de crédito pessoa física) podem sentir algum alívio nos próximos meses.
Cartão rotativo segue como o pior juro da praça. Mesmo com a Selic a 14%, o rotativo do cartão pode continuar cobrando mais de 400% ao ano. Não há queda de juro básico que resolva essa conta no curto prazo. Se você tem saldo rotativo, priorize a quitação com renegociação, transferência para modalidades mais baratas (como crédito consignado, se aplicável) ou uso do Desenrola 2.0.
Bets e crédito não combinam. A fala de Maluhy Filho é um reforço de um alerta que tem sido feito por especialistas e pelo próprio Banco Central: apostar online deteriora a saúde financeira da família e dificulta acesso futuro a crédito barato. Se você ou alguém da família usa bets, considere reduzir ou interromper o uso — especialmente em ano de eleição, em que incertezas podem comprimir ainda mais o orçamento.
Revisar o orçamento virou prioridade. Com a inadimplência em alta e o crédito mais restrito, gastar menos e poupar mais deixou de ser um conselho animador para virar estratégia de defesa. Famílias que já têm uma reserva de emergência e parcelas comprometidas em nível saudável (idealmente abaixo de 30% da renda, segundo padrões de educação financeira) têm muito mais chances de atravessar cenários adversos.
Olhando para frente
As falas de Maluhy Filho, somadas aos dados da CNC e à decisão do Copom, desenham um quadro claro para os próximos meses: o Brasil continuará descendo a Selic, mas lentamente, o efeito no bolso virá devagar, e a inadimplência ainda будет piorar um pouco antes de melhorar. Para o cidadão comum, isso significa que o pior do aperto financeiro pode ainda estar pela frente — e quanto antes a família reorganizar suas contas, maiores as chances de cruzar esse período com tranquilidade.
A entrevista do presidente do Itaú tem um valor que vai além das declarações políticas. Ela encurta a distância entre o que se discute nos palácios de Brasília e das salas do Copom no que aparece no extrato bancário da família brasileira. Quando o líder do maior banco privado do país diz que “não há quem defenda juros nesse patamar”, ele está, na prática, dando voz ao que milhões de devedores sentem no fim do mês. Cabe ao leitor usar essa informação — e o momento de ajuste que ela anuncia — para fazer as próprias escolhas, com clareza e responsabilidade.
A próxima reunião do Copom está marcada para o fim do ano, em novembro. Até lá, o movimento do mercado e os indicadores divulgados mensalmente pela CNC e pelo Banco Central vão ajudar a desenhar a próxima fase. Por ora, a recomendação dos especialistas é o limpo e o cru: gastar menos, poupar mais, não assumir dívidas novas e renegociar as que já estão apertando.