Para a economista Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, o país caminha para um cenário de “crise contratada” em 2027 se não houver uma ampla reforma fiscal. A projeção — exposta em entrevista ao InfoMoney publicada em 7 de agosto e atualizada dois dias depois — é que, mantidas as condições atuais, a dívida pública brasileira possa alcançar o patamar de 95% do PIB em 2030, o que passaria a corroer a credibilidade econômica do país e abrir caminho para mais inflação, juros altos, desvalorização cambial e desaquecimento da economia.
A leitura é das mais sérias em um momento em que a espectativa econômica brasileira gira em torno do ritmo de queda da Selic (que o Copom cortou para 14% ao ano na semana passada) e do grau de confiança do investidor estrangeiro. Mas, segundo a análise da UBS, o que está em jogo não é apenas a próxima reunião do Comitê de Política Monetária — é um desafio maior: o ajuste estrutural das contas públicas, que pode dominar toda uma geração econômica.
As regras fiscais estão “completamente desacreditadas”
No centro do diagnóstico está uma expressão forte da economista: “As regras fiscais estão completamente desacreditadas”. Para Srour, mais importante do que mudar o arcabouço fiscal (o conjunto de regras que limita o crescimento do gasto público) é garantir que ele seja cumprível — e que o governo não precise acioná-lo com exceções a cada risco. O novo arcabouço, em vigor desde 2023 em substituição ao teto de gasto, prevê limite de expansão dos gastos primários em 70% da variação da receita, com piso de 0,6% e teto de 2,5% acima da inflação em 2026.
Mas, segundo a diretora do UBS, esses limites já foram violados em relatar passados e tendem a sê-lo novamente neste ano. A manchete do jornal Valor, publicada neste domingo (9), reforça o diagnóstico: “Despesa em alta amplia desafio no arcabouço fiscal” — mostra que os principais gastos obrigatórios do governo já crescem bem acima do limite atual de 2,5% acima da inflação. Em outras palavras, a despesa cresce mesmo dentro de um teto que já é beneficiado pela elevada arrecadação tributária de 2025.
Para evitar a crise: corte de 4% do PIB nos gastos
Para estabilizar a relación dívida/PIB e evitar a crise em 2027, o Brasil precisaria cortar o equivalente a 4% do PIB em gastos públicos, segundo Srour. Ela reconhece que esse número é politicamente inviável para ser executado em um único ano, mas defende que ele é o parâmetro certo para dimensionar o tamanho do ajuste necessário.
“A gente está vivendo uma situação totalmente insustentável. Não tem como a gente conseguir continuar crescendo em torno de 2% e manter a inflação controlada com um juro real de 8% para todos os prazos”, alerta a diretora. “Nossa dívida está muito acima da média dos emergentes. Nosso objetivo não deveria ser ficar onde nós estamos, mas voltar a ser um país investment grade [grau de investimento].”
É importante compreender o que significa “juro real de 8%”: é a diferença entre a taxa nominal de juros (a Selic, hoje em 14% ao ano) e a expectativa de inflação (cerca de 4,5% a 5% ao ano). Esse é o prêmio que o investidor exige para emprestar dinheiro ao país. Quanto maior, maior é o custo de financiar a dívida pública — e mais fácil é o efeito dominó sobre o seu bolso.
O que precisa mudar (a agenda impopular)
O UBS detalha uma agenda prioritária de reformas, todas altamente impopulares, como condição para evitar a crise. Ela inclui, segundo a Srour:
- Desvincular o salário mínimo dos benefícios previdenciários e assistenciais — uma vez que a regra atual de elevação do mínimo (política de valor real acima da inflação) puxa automaticamente para cima benefícios como aposentadorias e o Benefício de Prestação Continuada (BPC).
- Revisão do Benefício de Prestação Continuada, revisando critérios de elegibilidade.
- Corte drástico nos gastos tributários — exceções, isenções e regimes especiais de tributação que reduzem a receita.
- Desindexação dos pisos de saúde e educação. Hoje, a União é obrigada a aplicar 15% da Receita Corrente Líquida em saúde e 18% da receita de impostos em educação. Esse mecanismo torna os gastos “pró-cíclicos”: sobem quando a economia vai bem e não recuam quando ela enfraquece-esvazia, o espaço para gasto discricionário.
- Reforma via PEC no primeiro ano do próximo mandato (2027), quando o novo presidente ainda teria capital político alto. Se adiada para 2028, o cenário econômico já estaria deteriorado.
As emendas parlamentares impositivas são, segundo Srour, o principal obstáculo legislativo. Ao garantir repasse obrigatório aos parlamentares, o mecanismo retira do Executivo seu poder de barganha, deixando o Congresso no controle da fatia discricionária do orçamento.
Como isso afeta o bolso do brasileiro
A reportagem macroeconômica pode parecer distante, mas o seu bolso já sente — ou sentirá — cada capítulo dessa novela. Veja como:
1. Juros mais altos por mais tempo
Se os investidores perderem confiança na trajetória fiscal, exigem uma taxa maior para emprestar ao Brasil. Isso significa Selic mais alta por mais tempo. Para você, isso se traduz em:
- Cartão de crédito e cheque especial com juros absurdos por mais tempo. Hoje já é a dívida mais cara do país.
- Crédito pessoal mais caro e mais difícil.
- Financiamento imobiliário com parcelas maiores.
- Cheque especial mais caro.
2. Inflação de volta ao radar
O medo fiscal costuma levar o Banco Central a manter a Selic alta, o que pressiona a economia para baixo e corrige o IPCA ao redor de 5%. Mas o mais importante é que a perda de controle fiscal abre porta para repasse de impostos e preços. Veja: o Valor publicou recentemente que a carga tributária bateu recorde de 32,4% do PIB em 2025 — e a reforma tributária com IBS/CBS começa a valer em 2027. Parte desse custo é inevitavelmente embutida no preço dos produtos que você compra no supermercado.
3. Desemprego e wage pressão baixa
Com juro real de 8%, a economia cresce pouco. Projeções do próprio UBS de crescimento perto de 2% em 2026 significam menos contratações, menos reajustes acima da inflação e mais dificuldade para pedir aumento de salário. O bolso doméstico do trabalhador, sem aumentos reais, vê seu poder de compra corroído.
4. Aposentados e investidores
Para quem depende de renda fixa (aposentados, investidores conservadores), uma crise fiscal tem dois lado opostos. De um, juros nominais mais altos significam rendimento maior da renda fixa — CDBs e Tesouro Selic pagam mais. De outro, a inflação come parte desse ganho e, se a dívida sair de controle, há risco de calote parcial em títulos públicos. Por isso, diversificação entre Tesouro IPCA+, CDBs de bancos sólidos e alguns ativos de bolsa (FIIs, ações que pagam dividendos) é o caminho mais defensável.
O que o investidor comum pode fazer agora
Diante de um cenário em que a inconformidade fiscal é um risco real, há uma estratégia básica para quem gere algum dinheiro:
1. Diversifique entre inflação e juros
Tenha uma parcela do patrimônio em Tesouro IPCA+ (que corrige pela inflação) e outra em Tesouro Selic / CDB pós-fixado (que paga juro). Assim, se a inflação subir, o IPCA+ protege; se o juro subir sozinho, o Selic protege.
2. Reduza dívidas de juros altos
O botão das dívidas de alto juro (cartão de crédito rotativo, cheque especial) é o mais rápido a apertar quando a Selic sobe. Em vez de esperar, negocie e quite essas dívidas antes. Se a crise fiscal se materializar, sua renda Entrará sob pressão e seus juros subirão — procê que não estar travado em dívidas caras é vantagem.
3. Cuidado com dívida em dólar ou ativos atrelados ao câmbio
Se crise fiscal vier, forte depreciação do real é esperada. Se você faz compras internacionais, estuda fora do país ou viaja, vale considerar antecipação de gastos programados. Para investidores, ter entre 10% e 20% do patrimônio em ativos dolarizados (como BDRs, ETFs internacionais e fundos offshore) ajuda a reduzir esse risco.
4. Mantenha reserva de emergência robusta
Em cenários de crise, o emprego tende a ficar mais frágil. A regra de 6 meses de gastos essenciais como reserva de emergência, válida em qualquer momento, ganha peso extra. Guarde-a em Tesouro Selic ou CDB com liquidez diária.
A crise não é um filme — é uma agenda política
O ponto central da entrevista de Solange Srour ao InfoMoney é que a crise de 2027 não é uma fatalidade — é uma decisão política. Se os governos e o Congresso conseguirem aprovar, ainda em 2027, a agenda de desvinculação do, a dívida pode estabilizar e o país reconquistar o grau de investimento. Se adiarem, o estrago já terá sido contabilizado para o trabalhador, o aposentado e o pequeno empresário.
O próximo presidente eleito em 2026 terá, segundo o UBS, o seu primeiro ano de mandato (2027) com capital político mais alto — e é justamente nesse momento que deverá gastar esse capital com a agenda impopular. “Se a tentativa for adiada para 2028, a economia já estará deteriorada e com o desemprego em alta, inviabilitando o processo”, diz Srour.
Fontes e considerações finais
A análise base deste artigo foi publicada pelo InfoMoney em 7 de agosto de 2026, com autoria de Élida Oliveira, em entrevista com Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management. O complemento sobre o desafio fiscal atual é da reportagem “Despesa em alta amplia desafio no arcabouço fiscal”, do jornal Valor, de 9 de agosto de 2026 (por Giordanna Neves e Lu Aiko Otta, de Brasília).
Para o leitor comum, a leitura é clara: o ajuste fiscal não é um tema de Brasília — é uma variável que opera silenciosamente sobre juros, inflação, emprego e poder de compra. Quem se antecipa — diversificando investimentos, evitando dívidas caras e mantendo reserva de emergência — tem mais margem para navegar o que vem pela frente, seja crise em 2027 ou crescimento retomado.