O volume de vendas no varejo restrito do Brasil subiu 0,5% em junho na comparação com maio, segundo a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), divulgada nesta quinta-feira (13) pelo IBGE. O resultado veio acima da estimativa mediana apurada pelo Valor Data junto a 21 consultorias e instituições financeiras, que projetava alta de 0,3%. Apesar do número, o quadro geral do consumo doméstico mostrou sinais divididos: o varejo ampliado — que inclui veículos, material de construção e atacarejo — caiu 1% no mesmo período, mas perdendo mais que os 0,3% recuados em maio.
O detalhe dos dados
A expansão de 0,5% no comércio restrito foi a maior taxa para o mês de junho desde 2023, quando avançou 0,8%. Em relação a junho do ano passado, o varejo restrito ganhou 2,9%, também superior à projeção mediana de 2,4%. No acumulado em 12 meses até junho, o segmento acumula alta de 1,6%. No primeiro semestre de 2026, o crescimento é de 1,9%.
Quatro das oito atividades do varejo restrito registraram alta em junho ante maio:
- Outros artigos de uso pessoal e doméstico: +2,4%
- Hiper e supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo: +1,1%
- Móveis e eletrodomésticos: +0,4%
- Artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria: +0,2%
No campo negativo, destacaram-se as quedas em:
- Livros, jornais, revistas e papelaria: -9,9%
- Tecidos, vestuário e calçados: -2,6%
- Combustíveis e lubrificantes: -1,7%
- Equipamentos e material para escritório, informática e comunicação: -1,3%
O varejo ampliado recuou sobretudo por causa de dois segmentos: veículos, motos, partes e peças (-1,5%) e material de construção (-3,5%). A queda de 1% no agregado é a mais forte desde dezembro de 2025.
Trimestre mostra forte desaceleração
No segundo trimestre de 2026, o volume de vendas no varejo restrito recuou 0,4% ante o primeiro trimestre — uma forte desaceleração em relação ao ganho de 1,2% registrado no início do ano. O varejo ampliado recuou 1% no mesmo período, virtualmente devolvendo o aumento de 1,1% do primeiro trimestre.
Por outro lado, tanto o varejo restrito quanto o ampliado operaram, em junho, com vendas abaixo dos picos da série histórica da PMC — quebrada iniciada em 2000. Faltam 0,8% para o varejo restrito voltar ao recorde de março de 2026, e 2,1% no ampliado, cuja máxima foi em fevereiro deste ano.
Portugal dos investidores estrangeiros
No entanto, dados do comércio não são o único indicador que está mexendo com as finanças do brasileiro. Em paralelo à divulgação do IBGE, gestores globais começam a reduzir exposição ao Brasil Num movimento que vem peso às semanas que antecedem a eleição presidencial de outubro.
Segundo reportagem do InfoMoney, baseada em dados da Bloomberg, gestores como VanEck, Vontobel, Aberdeen e State Street têm evitado apostas em renda fixa local brasileira ou recorrido redução de posição no real. A VanEck declarou que seus gestores David Austerweil e Eric Fine estão “à espera de uma trajetória mais turbulenta até a eleição”. Thierry Larose, da Vontobel, reduziu diretamente a posição no real, citando proteção deficiente do patamar atual. Kieran Curtis, da Aberdeen, também tem reduzido a exposição à moeda brasileira.
“Faz sentido entrar no período eleitoral com um pouco menos de risco no Brasil”, disse Curtis, segundo reportagem do InfoMoney. “Não necessarily seguir uma visão sobre o resultado, mas se preparar para a volatilidade.”
Uma pesquisa divulgada na terça-feira, que mostrou presidente Luiz Inácio Lula da Silva com vantagem mais ampla sobre Flávio Bolsonaro do que a maioria das sondagens, ajudou a impulsionar uma venda generalizada do real — moeda que teve o pior desempenho entre 31 divisas importantes monitoradas pela Bloomberg no dia. O ETF iShares MSCI Brazil, de US$ 8,4 bilhões, registrou sua maior saída diária desde 2013, enquanto o JPMorgan cortou a recomendação para ações brasileiras, preferindo “ficar de fora a pagar pela incerteza”.
Conecção com o bolso do consumidor
A combinação desses dois movimentos — dados mistos no varejo e saída de investidores do Brasil — tem implicações diretas na vida financeira do brasileiro.
1. Câmbio mais volátil
Com menos investidores estrangeiros absorvendo real e mais risco percebido, cai a pressão que apoia a moeda. O dólar pode voltar a subir caso o cenário politico se amplifique. Para quem compra produtos importados (eletrônicos, itens de moda, transporte internacional) ou projeta viagem ao exterior, fica maiscaro.
No acumulado de 2026 até julho, o real acumulaba alta de cerca de 6% ante o dólar, um dos melhores desempenhos entre os emergentes, graças a juros reais elevados. Se esse movimento se inverter, os brasileiros que têm gastos em dólar precisavam reconsiderar suas projeções.
2. Juros mais altos por mais tempo
A fuga de investidores também se manifesta no mercado de juros futuros. Os DIs vêm sendo reprecificados ao longo da curva: a taxa do contrato de janeiro de 2028esteve em 13,93% nesta quinta, e as pontas longas como janeiro de 2031 operavam em 14,455%. Quanto mais alto o mercado precifica juros futuros, mais difícil fica a queda da Selic para patamares que aliviem a dívida das famílias. Para quem paga financiamento, cartão ou consignado, o cenário de juros alto persistente é o inimigo número 1.
3. Desaceleração do consumo e ganho real
O resultado de junho mostra que o consumo doméstico ainda crescia, mas perde fôlego. O recuo de 0,4% do varejo restrito e de 1% do ampliado no segundo trimestre é um sinal de atenção sobre a confiança das famílias. Quando o crédito fica mais caro e os juros pesam sobre as dívidas existentes, a tendência natural é reduzir gastos não essenciais — exatamente o que evidenciam as quedas em vestuário (-2,6%), papelaria (-9,9%) e combustíveis (-1,7%).
O que o leitor deve observar
Com três indicadores — varejo, juros e câmbio — apontando ao mesmo tempo para mais cautela, algumas atitudes fazem sentido:
1. Redobre atenção às estimativas de viagem e importados
Com risco de o dólar subir novamente, planejar gastos atrelados à moeda estrangeira com folga de margem, evitando orçar no melhor cenário.
2. Aproveite os juros altos do lado do investidor
O mesmo cenário que penaliza o devedor recompensa quem tem caixa: Tesouro Selic, CDBs pós-fixados e LCI/LCA renderam acima da inflação nos últimos 12 meses. Manter parte considerável da reserva em renda fixa pós-fixada faz sentido enquanto os juros reais seguirem acima de 6%.
3. Adie grandes compras financiadas
Se os juros seguirem elevados por mais tempo (como mostram os DIs longos) e o consumo enfraquecendo, grandes compras financiadas (carro, móveis, eletrodomésticos caros) podem sofrer pressão de preço nos próximos meses. Há boas chances de preços caírem ou de surgirem campanhas promocionais. Adiar 2 a 3 meses pode render boa economia.
4. Reduza dependência de cartão de crédito rotativo
Mesas do Banco Central mostram que o crédito rotativo do cartão de crédito permanece acima de 400% ao ano. Em qualquer srcenario, ele é a pior forma de dívida pessoal. Pague a fatura integralmente sempre.
O contexto mais amplo
Os dados do IBGE, a postura dos gestores globais e as projeções do Banco Central se entrelaçam para desenhar um quadro de transição. Por um lado, o varejo ainda mostra vitalidade em setores de bens essenciais e não duráveis — bom sinal para o PIB. Por outro, setores mais sensíveis ao crédito (veículos, construção) recua, e investidores estrangeiros se afastam.
Até outubro, quando a eleição presidencial definir próximos passos da agenda fiscal esperada pelas urnas, a volatilidade é esperada. Para o brasileiro comum, isso se traduz em uma palavra de ordem: cautela ativa — controle de gastos, caixa blindado e decisões financeiras pensadas com antecedência, sem reagir às notícias do dia.
O contraponto reside no lado do investidor: enquanto a renda fixa permanecer paga premium acima da inflação, esse é o momento históricamente raro em que ser conservador é uma estratégia inteligente, não uma sina de medo.